Miss G @ 16:31

Qua, 29/02/12

Abri as páginas dum velho livro e logo o cheiro àquela casa me encheu os pulmões. As lágrimas encheram-me os olhos de saudades doutros tempos.

Trouxe o livro por gostar do autor, mas também porque ele te pertenceu. O meu (único) avô e os seus livros. A estante cheia deles e à sua frente dois cadeirões. Não eram esses que me cativavam, mas o sofá. Aos olhos da criança que eu era, aqueles três lugares mais pareciam trinta. Podia esticar-me e esticar-me sem fim. Cada almofada com a sua capa, com flores de todas as cores, bordadas, tricotadas... a delícia da minha imaginação.  A meus olhos tudo era enorme: a sala, o corredor, a mesa da cozinha. Hummm... aqueles pães com manteiga e marmelada, só com manteiga, com requeijão às quatro da tarde. A essa hora já os canários tinham cantando quase todo o repertório do dia, já tínhamos conversado, já tinha varrido a cozinha para a minha avó. O Sol brilhava como até hoje nunca mais brilhou e a Primavera nunca teve brisa tão doce e suave como quando esperava pelas minhas amigas à janela. 

Não quero abrir mais este livro. Talvez nem leia a história que ele conta, com medo de gastar os aromas que avivam a minha memória desses tempos de petiz. Não quero abrir mais este livro e recordar que agora a casa se tornou mais escura, mais vazia.




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